quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

"Memórias" de Maria Noviello

Como guardamos lembranças? Essa pergunta passeia sempre em minha “memória”. Na ciência é muito comum fragmentar o conhecimento talvez devido à dificuldade de compreensão do todo. A partir daí são criadas várias definições e tipos de memória; de longa duração, de curta duração, imunológica, musical, olfativa etc. Intrigante é pensar porque, quando já passamos por um terremoto, ao menor sinal de desequilíbrio nosso corpo toma uma atitude de fuga. Também, ao adoecermos devido a uma interação com um vírus, por exemplo, um novo contato com este mesmo em outro tempo, pode não desencadear nenhum dano; ou mesmo quando comemos um alimento a vida inteira e passamos a não “tolerá-lo” a partir de determinado momento. Alguma coisa estaria guardada em nossas células? Se pensarmos que, todo organismo vivo é uma rede de interações moleculares que criam uma organização e também uma estrutura, esta “memória” poderia ser estados de reações moleculares onde as relações de concentrações são ideais? Ou seja, onde a reação reagente produto atinge o equilíbrio, um moto continuum, assim como a autopoiese de Maturana, onde o fazer é o conhecer e o conhecer é o fazer. De outra forma: organismos em constante interação com outros organismos e o meio ambiente, mudam a cada instante e, portanto, não podem interagir da mesma forma novamente. Mas uma coisa é certa, ao vivermos, processamos uma infinidade de reações com produtos e subprodutos que se inscrevem em nosso DNA, e que se transformam em nossa história. Nossos gostos, amores, experiências, desejos, decepções, tristezas, felicidade...
Nietzsche disse: “a vida boa é a que consegue viver o instante sem referência nem ao passado nem ao futuro, sem condenação pessoal, com leveza absoluta, com o sentimento perfeito de que não há mais diferença real entre o passado e a eternidade”. É a suprema felicidade não é mesmo? Mas onde vemos isto? Existe? Um por do sol no mar... Aquela sensação do sol fritando na água e a luz dourada no céu nos faz calar, o momento transcende o tempo. A natureza nos proporciona esta sensação de eternidade. E quando o amor acontece... A sensação de transcendência é a mesma. O amor muda a vida, muda o olhar, muda tudo; até o mudar. Os milhões de reações moleculares geradas neste viver é que penso que são responsáveis por formarem o que chamamos de lembranças. Parece fácil concluir que, quanto mais marcante um episódio mais ele ficará gravado em nosso DNA e conseqüentemente em nossa história de vida. Isso é o que vemos no dia a dia. Mas qual seria o mecanismo de formação e manutenção destas “memórias”? A simples lembrança de um terremoto, uma vacina que produz “células que lembram”, a falta dessas gerando uma reação a um alimento, um cheiro de infância... Todas essas situações nos fazem pensar que podem encerrar um mesmo mecanismo, um mecanismo que se confunde com a fisiologia do organismo, um “aprender” a viver. E se pudéssemos lembrar com a mesma intensidade que a situação real, poderíamos voltar a vivê-la? O lembrar seria então um “replay”[1], com menos intensidade, dessas mesmas reações moleculares formadoras de nossa história e, por conseguinte, as mesmas sensações sem o gosto do real? Talvez...


1. Lin, L., et al., Identification of network-level coding units for real-time representation of episodic experiences in the hippocampus. Proc Natl Acad Sci U S A, 2005. 102(17): p. 6125-30.